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Biblioteca de Fátima

 

CRUZ, Afonso - Princípio de Karenina. Lisboa : Companhia das Letras, 2018. ISBN 978-989-665-692-8

 

Sendo também cineasta e ilustrador, profissionalmente falando, Afonso Cruz é o paradigma do escritor requintado. Manipula a língua portuguesa de um modo límpido, claro, e com ela faz tecituras de clarividência única: pelo modo eufónico como a sua prosa parece sair de uma construção poética; pela criatividade espontânea com que consegue fabricar imagens literárias de rara beleza; pelo bom domínio da sintaxe com que constrói as sua frases.

O livro parece ter sido inspirado numa viagem real às terras que no século 16 se designavam por Conchichina ( Camboja, Vietname ). Na verdade, o narrador, autodiegético, descreve uma ficção para um narratário geral, sendo que, numa segunda parte, o narratário é uma suposta filha sua, que tivera de uma relação ilícita com o amor da sua vida, configurado aqui como uma refugiada de guerra vietnamita.

A quase totalidade desta ficção passa-se numa qualquer vila provinciana portuguesa, em meados dos anos sessenta, embora com trânsitos pelo sudeste asiático. O narrador tem uma deficiência física: tem um problema no pé, desde nascença, que o impede de caminhar normalmente. Este é o selo que o marca, ao longo da história. O distanciamento do pai, para quem tudo é bárbaro, após transposta a soleira da porta; o amor da mãe, sempre presente; a criada velha, que nunca para; a infância, a juventude, o enamoramento com a filha do dono da farmácia, a quem não ama; a envolvência com essa mulher oriental, que a dado momento entra em casa, para ajuda da velha criada. Com ela tem um caso, com ela surge esse sentimento a que nos habituámos a chamar amor. Grávida dele, parte para o Vietname, para acompanhar a morte do pai, mas cujo motivo profundo, afinal, foi o facto de ter sido planeado pela mulher, já sabedora das infidelidades do marido. Já não volta. Por causa da guerra. Passados dezasseis anos dá o narrador a viagem final até ao Extremo Oriente, em busca da mulher e da filha. Esta, desconhecendo a sua identidade, e portadora de alguma droga que traficava, acaba por enfiá-la, simulando um abraço, no bolso do casaco do pai, que o arrastará à morte, como se pagasse agora a fatura do esquecimento a que os tinha votado ao longo de dezasseis anos.

Se o trama é mais ou menos banal, já não é o floreado literário com que está escrito.